Uma fina garoa de verão molhava sua camisa. Caminhava cabisbaixo com a chuva encobrindo suas lágrimas. Anjos de néon e enfeites natalinos bem colocados contrastavam com o vomito de bebados e corpos imundos em coma alcóolico jogados na calçada como também com os travestis e as prostitutas que se protegiam na entrada de moteis a espera de algum cliente. Alguém deve ter feito alguma gracinha a Viny, mas, este não estava neste mundo agora. Sua mente vagava para longe, para a cena de um cruzeiro maritimo cheio de musica e alegria, onde ela provavelmente estaria usando o vestido preto de alça que tanto lhe caía bem, ou quem sabe o vestido tomara-que-caia vermelho, o mesmo do dia em que ela sorria quando contava sobre sua vida feliz, como se dava bem fazendo medicina e como era considerada uma aluna exemplar por seus professores, que até mesmo deram permissão para naquele ano iniciar um estagio prematuramente, e dizia da sorte que tinha. Era esmagador, como uma formiga tentando ver uma ave de rapina no céu.
Nathalie era tudo que tinha em mente neste momento. Sentia falta de seu sorriso, seu olhar tão cativante e inocente, seus lindos cabelos ruivos soltos, sua pele macia, seu rosto angelical que ficava divino quando ela colocava seus óculos. Ele sabia que ela não gostava de usar óculos, e, toda vez que brincava com ela por causa deles, ela corava. A alegria era dificil de esquecer, pois derretia seu coração completamente. Hoje, o fervor daquela alegria passou com o frio da distancia e tornou o que restou em uma rocha disforme em seu peito. Ela era o centro de sua vida. Centro de sua atenção. A única coisa em sua mente. Ele só percebeu a faca espetando suas costas e o trazendo para a realidade suja depois de um tempo.
"Passa a carteira que tu não sai todo furado, playboy." Era o que lhe faltava. Nem mesmo Viny acreditou como sua voz soou tão fria e mecanica.
"Em meu bolso direito encontrará minha carteira, está desprovida de qualquer cartão de crédito, dinheiro, ou cartão de conta. Notará também que eu não carrego uma identidade ou um celular comigo. Na verdade eu ia agora mesmo pular diante do transito da avenida que fica aquí a duas quadras. Se quiser me matar, FAÇA!"
Não mentia, estes eram mesmo seus planos. E que diferença se fosse vitima de latrocinio? Bom, faria. Não sentia estar no controle das opções até então, e ele, como um rato de laboratório bem condicionado a fazer o que quer que seja mesmo sem saber a razão de o estar fazendo vivia triste com a realidade inevitavel. Mesmo que não se surpreendesse, afinal, onde pessoas choram, sempre terá um vendedor de lenço, não se conformava como o mundo era simplesmente moldado para as pessoas sofressem e não se conformassem consigo mesmas, principalmente pois notava o quão lucrativo era este negócio. Mas mesmo os curativos de um falso senso de realidade que um poder aquisitivo cria não era o bastante para curar suas feridas. Percebeu que quem estava atrás dele hesitava com estas palavras.
O golpe foi arriscado, e perigoso. Se atirou com os dois braços no chão, rolou enroscando as pernas do assaltante nas suas, o derrubando no chão. Embora coberto pela agua suja, não foi jogado no meio do transito, onde, após bater a cabeça, o ladrão ficou imovel no asfalto um pouco se afogando e procurando com as mãos a testa enquanto Viny rolava para o lado. Enquanto seguia seu caminho a passos rapidos antes do homem que deixou para trás se recuperasse, ouviu um barulho violento de um carro que freiava bruscamente. Exatamente o homem caido no chão, tinha seu sangue levado pela chuva para se misturar ao esgoto.
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