domingo, 28 de outubro de 2012

Então a morte negociava com ele. Era metade de sua vida se quisesse salvar a sua esposa em estado terminal, e ainda assim não era garantido que ela viveria sem sequela alguma do acidente. A presença da morte mataria os mais fracos de espírito somente de olhar, mas, Valter tinha uma convicção. As sombras do hospital a noite haviam sido substituídas por tetricas figuras, enquanto ele olhava um véu preto sem rosto segurando uma foice, já em posição de ceifar. As paredes eram cobertas por um negrume que se arrastava até deixar somente a cama de Nathany, Valter e a Morte. O que era um quarto escuro, se revelou um universo negro gigante. Havia, atrás da morte, dois caminhos. Um levava a um elevador. O outro a um túnel sem fim. Do túnel podia ser visto uma cadeira de rodas sendo puxadas por dois seres humanos completamente nus e destituídos e qualquer pelo. Ambos usavam cabrestos e tinham uma lança enfiada no meio das costas, onde se saia uma corrente. Na cadeira de rodas. Uma boneca de plástico cheia de pregos estendia a mão, e, mesmo seu olhar artificial dizia que esperava levar alguém a algum lugar.


--ENTÃO, O QUE VAI SER? NÃO POSSO TE GARANTIR QUE SEJA MUITO TEMPO. PODE SER TANTO MAIS VINTE ANOS, QUANTO APENAS UMA PARCELA DE SEGUNDO. NÓS, PARTICULARMENTE, EVITAMOS ESTE PROCEDIMENTO.





--Mas não é impossível. Uma morte a meia noite de uma alma não corrompida que foi anunciada por uma Banchee. Ela morreu no dia perfeito para o ritual, portanto exijo que use sua foice em mim.





--É UM PRIVILÉGIO SER DA FAMÍLIA DA BANSHEE E SABER USAR O SEU DOM NO MOMENTO CERTO. NÓS NÃO NASCEMOS PARA JULGAR, APENAS PARA LEVAR A COLHEITA, MAS, CONSIDERAMOS-LO UM TOLO. MESMO SE VIVESSE MAIS UM SÉCULO, QUE DIFERENÇA FARIA PARA ELA? É SOMENTE VIVER.





--E viver é tudo o que nós temos, e tudo que eu fracassaria em usufruir sem ela.





Sem mais uma palavra, Nathany e Valter foram, cada um, repelido de volta de onde estavam. Embora ele tivesse invocado morte e este o arrebatado ao consultorio onde sua esposa morria, o seu corpo estava dentro de um circulo de magia, formado por um hexagrama e algumas escritas em irlandes classico. Surpreendemente todas as ervas aromaticas e insensos estavam, não apenas apagados, mas, gelados, incapazes de serem usados novamente. Nunca havia ouvido falar em ritual de magia que trouxesse tal efeito. Assim como qualquer praticante de magia jamais entenderia o que foi feito naquele ritual. Estava no sangue dele ouvir o grito da Banchee, e, do seu clã, O'Connors, poucos evocam seu passado e descobrem o feitiço escrito em suas mentes antes de saberem falar. Saiu correndo.


Nathany havia entrado em um estado de pre-morte quando andavam por uma via estadual e Valter ficou surdo pelo grito de Banchee, grito este que soava familiar, mesmo nunca tendo ouvido antes. Ele escapou do acidente mas ela ficou com ferimentos graves, e, certamente, morreria.

Ao sair, retirar todos os objetos magicos congelados, acendeu a lareira e pos fogo em tudo, exceto a foto dos dois juntos, que guardou no bolso da camisa. No ritual, havia feito um simbolo magico atrás da foto, e seus instintos diziam que era importante guardar para sí.

As ruas eram geladas aquela hora. Eram cinco da manhã, e uma expessa neblina cobria toda a rua no estilo gotico-britanico na qual Valter morava. Quando percebeu, ouviu um zunido. Se agaixou.

Era como se o tempo tivesse voltado para trás. Uma rachadura no céu fez as cores estavam negativas aos olhos de Valter. O excesso de branco criou uma escuridão mortal, e o sol trazia consigo trevas impossiveis de se olhar diretamente. Valter percebeu que a unica coisa que não estava naquela cor era ele mesmo, e um corpo parado em cima de um muro -- Um jovem de cabelos bagunçados, vestia um sobretudo preto com detalhes cinzas, piercings, um tapa olho, coturno e luvas de motoqueiro. O jovem saltou de forma graciosa e caiu sem tremer no chão.

--Good morning, então, você que é o "O" decidido a encarar a morte, am I right?
--Como você sabe do ritual?
--IDIOT. Existem milhões de pessoas no mundo que são mortas ao mesmo tempo, acredita mesmo que exista um ser capaz de cuidar de tudo sozinho?
--Isto quer dizer...
--Que se quiser que a donzela possua metade da sua vida vai ter que me convencer.

Nas mãos do jovem apareceu uma foice velha de madeira morta e que a propria lamina exalava uma sensação de desespero. Era como se ela sempre estivesse lá, Valter que nunca percebeu. Foi um movimento circular preciso, Valter precisou rolar para o lado para não ser atingido pela foice.

--Quem diabos é você?
-- Tudo depende de onde você me conheceu. Existem mil nomes para aqueles como eu. Mas não sou ninguém. Everyone calls me Nobody.

Com um salto na neblina negra, Nobody saiu de vista. As coisas estavam ruins para Valter. Milhões de olhos o cercavam. Não sabia mais o que era real e o que não era. Ouvia uivos de lobos e barulhos de patas de animais o cercando, mas, em pleno centro da cidade? E como somente ele via aquilo? Nenhum vizinho apareceria?

O fato é, existiam milhões de seres como Nobody, mas, Nobody era especial. Ele gostava de seu trabalho. Ele gostava de brincar com a comida, quando autorizado. Em geral, vivia em um bairro onde a maioria das mortes ocorriam por brigas de jovens bebados de madrugada e acidente de carro, e, fora aqueles que ele tinha que indicar a porta correta, sempre haviam aqueles que ele podia empurrar para o abismo. Ele sabia que era função de outro faze-lo, mas, cercar suas vitimas era sua diversão. E mesmo se as retalhasse, o que aconteceria com uma alma retalhada?

Valter O'Brien, a velha canção previa que ouviria o grito da banchee, mas, isto era loucura. A unica coisa que ele pode fazer foi seguir o seu coração. No momento em que ouviu o ar sendo cortado perto de sua cabeça, levantou a foto no ar. Quando abriu os olhos, tudo havia voltado ao normal.
--Bom, nós temos um trato então, levarei você na metade do tempo, e ela ganhará a outra metade. Vá ao hospital, o proprio corpo dela já deve estar tratando de suas feridas, you know?

Nobody deu um salto, e, os olhos de Valter não puderam acompanhar.

A foto estava cortada. Atrás da foto havia um pentagrama. O corte foi feito exatamente em cima da linha que passava na horizontal, cortando parte do rosto dos dois. Guardou-a no bolso.
Não havia sobrado muito da cidade. Os homens, em sua maioria, haviam partido em massa para morrer, e as mulheres, logo em seguida. Ao termino da guerra, quem sobrou ou era jovem demais para ter sido convocado, ou era velho demais para conseguir ser util no campo de batalha. Poucos homens e mulheres com mais de vinte anos circulavam pelas ruas. A guerra acabou, mas, somente o desespero voltou com ela.
Vitor morava sozinho. Havia invadido a casa de um antigo advogado, o que significa que tinham ainda alimentos dos bons tempos em seus estoques. Tinha sorte de morar numa cidade como São Paulo, capital do que hoje é conhecido como Federação Sul-Brasileira. A geopolitica atual em nada refletia a antiga geopolitica, pois a FSB possui territorios do que seria nos mapas antigos o Sul, Centro-Oeste e parte do Sudeste do antigo Brasil, assim como a Bolivia, Paraguai e parte do antigo territorio Argentino. Todo o territorio Norte e Nordeste, assim como parte do Sudeste e todos os paises ao norte do antigo territorio Brasileiro, incluindo Venezuela, Colombia, Equador e parte do Peru que não tinha sido reduzido ao pó, formavam o Estado Comunista Amazonico. Todo o resto da America do Sul, estava completamente inabitavel. E este é um dos continentes que menos foram afetados pela guerra. Toda a Africa, Asia, toda a America Central e quase a America do Norte por completo, toda a Europa, a Oceania por completo, poderia servir de exemplo de como a vida de Vitor poderia ser muito pior.

sábado, 22 de setembro de 2012

projeto 1

Uma fina garoa de verão molhava sua camisa. Caminhava cabisbaixo com a chuva encobrindo suas lágrimas. Anjos de néon e enfeites natalinos bem colocados contrastavam com o vomito de bebados e corpos imundos em coma alcóolico jogados na calçada como também com os travestis e as prostitutas que se protegiam na entrada de moteis a espera de algum cliente. Alguém deve ter feito alguma gracinha a Viny, mas, este não estava neste mundo agora. Sua mente vagava para longe, para a cena de um cruzeiro maritimo cheio de musica e alegria, onde ela provavelmente estaria usando o vestido preto de alça que tanto lhe caía bem, ou quem sabe o vestido tomara-que-caia vermelho, o mesmo do dia em que ela sorria quando contava sobre sua vida feliz, como se dava bem fazendo medicina e como era considerada uma aluna exemplar por seus professores, que até mesmo deram permissão para naquele ano iniciar um estagio prematuramente, e dizia da sorte que tinha. Era esmagador, como uma formiga tentando ver uma ave de rapina no céu.
 Nathalie era tudo que tinha em mente neste momento. Sentia falta de seu sorriso, seu olhar tão cativante e inocente, seus lindos cabelos ruivos soltos, sua pele macia, seu rosto angelical que ficava divino quando ela colocava seus óculos. Ele sabia que ela não gostava de usar óculos, e, toda vez que brincava com ela por causa deles, ela corava. A alegria era dificil de esquecer, pois derretia seu coração completamente. Hoje, o fervor daquela alegria passou com o frio da distancia e tornou o que restou em uma rocha disforme em seu peito. Ela era o centro de sua vida. Centro de sua atenção. A única coisa em sua mente. Ele só percebeu a faca espetando suas costas e o trazendo para a realidade suja depois de um tempo.
 "Passa a carteira que tu não sai todo furado, playboy." Era o que lhe faltava. Nem mesmo Viny acreditou como sua voz soou tão fria e mecanica.
 "Em meu bolso direito encontrará minha carteira, está desprovida de qualquer cartão de crédito, dinheiro, ou cartão de conta. Notará também que eu não carrego uma identidade ou um celular comigo. Na verdade eu ia agora mesmo pular diante do transito da avenida que fica aquí a duas quadras. Se quiser me matar, FAÇA!"

Não mentia, estes eram mesmo seus planos. E que diferença se fosse vitima de latrocinio? Bom, faria. Não sentia estar no controle das opções até então, e ele, como um rato de laboratório bem condicionado a fazer o que quer que seja mesmo sem saber a razão de o estar fazendo vivia triste com a realidade inevitavel. Mesmo que não se surpreendesse, afinal, onde pessoas choram, sempre terá um vendedor de lenço, não se conformava como o mundo era simplesmente moldado para as pessoas sofressem e não se conformassem consigo mesmas, principalmente pois notava o quão lucrativo era este negócio. Mas mesmo os curativos de um falso senso de realidade que um poder aquisitivo cria não era o bastante para curar suas feridas. Percebeu que quem estava atrás dele hesitava com estas palavras.

O golpe foi arriscado, e perigoso. Se atirou com os dois braços no chão, rolou enroscando as pernas do assaltante nas suas, o derrubando no chão. Embora coberto pela agua suja, não foi jogado no meio do transito, onde, após bater a cabeça, o ladrão ficou imovel no asfalto um pouco se afogando e procurando com as mãos a testa enquanto Viny rolava para o lado. Enquanto seguia seu caminho a passos rapidos antes do homem que deixou para trás se recuperasse, ouviu um barulho violento de um carro que freiava bruscamente. Exatamente o homem caido no chão, tinha seu sangue levado pela chuva para se misturar ao esgoto.