Então a morte negociava com ele. Era metade de sua vida se quisesse
salvar a sua esposa em estado terminal, e ainda assim não era garantido
que ela viveria sem sequela alguma do acidente. A presença da morte
mataria os mais fracos de
espírito somente de olhar, mas, Valter tinha uma convicção. As sombras do hospital a noite haviam sido
substituídas por
tetricas figuras, enquanto ele olhava um
véu
preto sem rosto segurando uma foice, já em posição de ceifar. As
paredes eram cobertas por um negrume que se arrastava até deixar somente
a cama de
Nathany,
Valter e a Morte. O que era um quarto escuro, se revelou um universo
negro gigante. Havia, atrás da morte, dois caminhos. Um levava a um
elevador. O outro a um
túnel sem fim. Do
túnel podia ser visto uma cadeira de rodas sendo puxadas por dois seres humanos completamente nus e
destituídos e qualquer pelo. Ambos usavam
cabrestos e tinham uma lança enfiada no meio das costas, onde se saia uma corrente. Na cadeira de rodas. Uma boneca de
plástico cheia de pregos estendia a mão, e, mesmo seu olhar artificial dizia que esperava levar alguém a algum lugar.
--ENTÃO,
O QUE VAI SER? NÃO POSSO TE GARANTIR QUE SEJA MUITO TEMPO. PODE SER
TANTO MAIS VINTE ANOS, QUANTO APENAS UMA PARCELA DE SEGUNDO. NÓS,
PARTICULARMENTE, EVITAMOS ESTE PROCEDIMENTO.
--Mas não é
impossível. Uma morte a meia noite de uma alma não corrompida que foi anunciada por uma
Banchee. Ela morreu no dia perfeito para o ritual, portanto exijo que use sua foice em mim.
--É UM PRIVILÉGIO SER DA
FAMÍLIA DA
BANSHEE E SABER USAR O SEU DOM NO MOMENTO CERTO. NÓS NÃO NASCEMOS PARA JULGAR, APENAS PARA LEVAR A COLHEITA, MAS,
CONSIDERAMOS-LO UM TOLO. MESMO SE VIVESSE MAIS UM
SÉCULO, QUE DIFERENÇA FARIA PARA ELA? É SOMENTE VIVER.
--E viver é tudo o que nós temos, e tudo que eu fracassaria em usufruir sem ela.
Sem mais uma palavra,
Nathany e Valter foram, cada um, repelido de volta de onde estavam. Embora ele tivesse invocado morte e este o arrebatado ao
consultorio onde sua esposa morria, o seu corpo estava dentro de um circulo de magia, formado por um
hexagrama e algumas escritas em
irlandes classico.
Surpreendemente todas as ervas
aromaticas e
insensos
estavam, não apenas apagados, mas, gelados, incapazes de serem usados
novamente. Nunca havia ouvido falar em ritual de magia que trouxesse tal
efeito. Assim como qualquer praticante de magia jamais entenderia o que
foi feito naquele ritual. Estava no sangue dele ouvir o grito da
Banchee, e, do seu clã,
O'Connors, poucos evocam seu passado e descobrem o feitiço escrito em suas mentes antes de saberem falar. Saiu correndo.
Nathany havia entrado em um estado de
pre-morte quando andavam por uma via estadual e Valter ficou surdo pelo grito de
Banchee,
grito este que soava familiar, mesmo nunca tendo ouvido antes. Ele
escapou do acidente mas ela ficou com ferimentos graves, e, certamente,
morreria.
Ao sair, retirar todos os
objetos magicos congelados, acendeu a lareira e
pos fogo em tudo,
exceto a foto dos dois juntos, que guardou no bolso da camisa. No ritual, havia feito um
simbolo magico atrás da foto, e seus instintos diziam que era importante guardar para
sí.
As ruas eram geladas aquela hora. Eram cinco da manhã, e uma
expessa neblina cobria toda a rua no estilo
gotico-
britanico na qual Valter morava. Quando percebeu, ouviu um zunido. Se
agaixou.
Era
como se o tempo tivesse voltado para trás. Uma rachadura no céu fez as
cores estavam negativas aos olhos de Valter. O excesso de branco criou
uma escuridão mortal, e o sol trazia consigo trevas
impossiveis de se olhar
diretamente. Valter percebeu que a
unica coisa que não estava naquela cor era ele mesmo, e um corpo parado em cima de um muro -- Um jovem de cabelos
bagunçados, vestia um sobretudo preto com detalhes cinzas,
piercings, um tapa olho,
coturno e luvas de
motoqueiro. O jovem saltou de forma graciosa e caiu sem tremer no chão.
--
Good morning, então, você que é o "O" decidido a encarar a morte,
am I
right?
--Como você sabe do ritual?
--
IDIOT.
Existem milhões de pessoas no mundo que são mortas ao mesmo tempo,
acredita mesmo que exista um ser capaz de cuidar de tudo sozinho?
--Isto quer dizer...
--Que se quiser que a donzela possua metade da sua vida vai ter que me convencer.
Nas mãos do jovem apareceu uma foice velha de madeira morta e que a
propria
lamina exalava uma sensação de desespero. Era como se ela sempre
estivesse lá, Valter que nunca percebeu. Foi um movimento circular
preciso, Valter precisou rolar para o lado para não ser atingido pela
foice.
--Quem diabos é você?
-- Tudo depende de onde você me conheceu. Existem mil nomes para aqueles como eu. Mas não sou ninguém.
Everyone calls me
Nobody.
Com um salto na neblina negra,
Nobody
saiu de vista. As coisas estavam ruins para Valter. Milhões de olhos o
cercavam. Não sabia mais o que era real e o que não era. Ouvia uivos de
lobos e barulhos de patas de animais o cercando, mas, em pleno centro da
cidade? E como somente ele via aquilo? Nenhum vizinho apareceria?
O fato é, existiam milhões de seres como
Nobody, mas,
Nobody
era especial. Ele gostava de seu trabalho. Ele gostava de brincar com a
comida, quando autorizado. Em geral, vivia em um bairro onde a maioria
das mortes ocorriam por brigas de jovens
bebados
de madrugada e acidente de carro, e, fora aqueles que ele tinha que
indicar a porta correta, sempre haviam aqueles que ele podia empurrar
para o abismo. Ele sabia que era função de outro
faze-lo, mas, cercar suas vitimas era sua diversão. E mesmo se as retalhasse, o que aconteceria com uma alma retalhada?
Valter O'
Brien, a velha canção previa que ouviria o grito da
banchee, mas, isto era loucura. A
unica
coisa que ele pode fazer foi seguir o seu coração. No momento em que
ouviu o ar sendo cortado perto de sua cabeça, levantou a foto no ar.
Quando abriu os olhos, tudo havia voltado ao normal.
--Bom, nós temos um trato então, levarei você na metade do tempo, e ela ganhará a outra metade. Vá ao hospital, o
proprio corpo dela já deve estar tratando de suas feridas,
you know?
Nobody deu um salto, e, os olhos de Valter não puderam acompanhar.
A foto estava cortada. Atrás da foto havia um
pentagrama. O corte foi feito
exatamente em cima da linha que passava na horizontal, cortando parte do rosto dos dois. Guardou-a no bolso.